Do amor e suas práticas

by Tatiane Gonçalves in Crônica

· No Comments

Primeiramente gostaria de dizer que tenho vivido em busca do amor. Não o amor entre um homem e uma mulher que, para mim, é infinitamente menor que o amor que busco. Creio no amor pleno pela natureza e tudo que nela está presente, por exemplo, nós mesmos. Consegui a proeza? Não! Digo sem medo de errar. Não sei amar como gostaria, mas tento todos os dias. Amar nossos parentes é fácil. Aqueles que nos fazem o bem, que concordam conosco ou nos elogiam, mais fácil ainda, mas o difícil é tentar exercer o amor continuamente, no dia a dia.

Na nossa vida reproduzimos comportamentos que fazem parte de um senso comum na sociedade. É comum acharmos que se estamos muito felizes agora é porque algo vai dar errado em seguida, ou vamos morrer. Quantas mães que não tem o costume de beijar e de serem beijadas por seus filhos estranham quando isso ocorre? E acham até que a morte se aproxima só porque ganharam um beijo. Mas será que tem que ser assim? É possível ter uma vida familiar tranquila? Será que não admitimos viver em paz com nossa família porque, ao olharmos para os lados, vemos as famílias se desentendendo e cheias de problemas? Será que não há uma “inveja” um desejo inconsciente de reproduzir o padrão da família desunida e brigona?

Quando uma família procura problemas onde não há, ou maximizam pequenos problemas, ela parece estar dando sinais de que não consegue viver tranquilamente. Algo lhe falta. Lhe faltam atritos, desavenças, ora, em toda família normal há isso, não é mesmo? É mesmo? Quem disse isso?

Sabemos, sim, que cada pessoa é diferente. E não é por que ela nasceu de uma mãe e de um pai que ela pensará igual a eles. A personalidade e a percepção de mundo são particulares. São construídas ao longo das trajetórias individuais. Cada indivíduo tem suas experiências únicas e, o que serve pra um nem sempre serve pra outro. Eu, por exemplo, amo ficar nua em praia naturistas ou em casa, apesar de ser obesa. Estou em paz comigo e com meu corpo. Ele é o retrato do que sou, de minhas experiências, meus sabores e desabores. Esse ato pode ser para alguns abominável e, acreditem, não há certo ou errado. Para aquele que gosta de sua própria nudez, ótimo, para aquele que não gosta também ótimo!

Não precisamos concordar uns com os outros! Precisamos respeitar que as pessoas vivem e enxergam suas vidas diferentes a partir de suas vivências, suas individualidades. Ninguém deve ser punido ou julgado por pensar diferente. É preciso respeito! Isso está além de vínculos familiares. Uma pessoa deve respeitar a outra, independente do laço familiar. Antes de um filho ser filho, de um pai ser pai, de uma mãe ser mãe, todos são humanos e existem no tempo e no espaço. São entidades completas em seus próprios corpos.

Há dois importantes exercícios nessa caminhada: a escuta e a alteridade. Trabalhar a escuta é ouvir os outros com a mente aberta, sem se colocar em defesa se justificando a cada palavra, sem interromper o interlocutor a cada frase para o que quer que seja, desde críticas a elogios. A maioria das pessoas se põe na defensiva ao escutar críticas e criam um muro imaginário e intransponível. Além de bloquearem a escuta da crítica, tornam-se defensivos e agressivos, elevam suas vozes, desabrocha a sua ira. Trabalhar a alteridade é colocar-se no lugar do outro. Aparentemente fácil, mas devo dizer-lhes só na aparência mesmo. Colocar-se no lugar do outro não é apenas dizer: se fosse comigo eu faria isso ou aquilo. Colocar-se no lugar do outro é observar o seu contexto, o mais que puder, e tentar enxergar a situação como ele enxerga a partir das experiências do outro e não das próprias. Por exemplo, não sou mãe, mas quando tento me colocar no lugar da minha mãe tento imaginar o que é ser mãe em seu sentido mais amplo de um amor intenso, que gerou, que formou, associo ainda as experiências de vida que conheço a respeito das vivências dela, e o mais importante, admito para mim mesma que há uma essência dela que é extremamente particular, inalcançável, que nunca poderei capturar nem mesmo com o mais atento dos olhares, algo que lhe é particular em sua visão de mundo. Entendo que seja assim o exercício da alteridade. Olhar para o outro e saber que ali existe o que eu enxergo e o que eu não enxergo, intenções, gestos, medos, aflições, frustrações, esperanças, enfim uma infinidade de exixtências em um único ser. E é assim que eu devo olhar cada indivíduo. Desta forma, antes de julgar qualquer pessoa, devo admitir que nada sei dela e do que a fez tomar essa ou aquela atitude. Terá passado por privações na infância, ter sido vítima de algum tipo de violência e/ou opressão ao longo de sua vida? Se não conhecemos nem a nós mesmos em nossos subterrâneos mais profundos, o que poderemos dizer do outro?

No meu exercício diário de amor, trago pelos mãos esses dois treinamentos, a escuta e alteridade. São crianças traquinas, às vezes fogem. Educá-las é tarefa árdua.

Tags:

Leave a Comment