O inclassificável organismo quimera

by Tatiane Gonçalves in Prosa

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“Toda pessoa tem direito ao nome, nele
compreendidos o prenome e o sobrenome.”
Art. 16 do Código Civil Brasileiro

 

Carregava, nas células, vinte e três cromossomos oriundos do pai e mais vinte e três oriundos da mãe. Era toda feita dessa matéria. E de mais um tanto de coisas. No nome também carregava sua marca: um nome seu! Um sobrenome de pai, um sobrenome de mãe. Algo que lhe denominava. Um som ao qual deveria atender quando ouvisse. Seu nome. No meio de outras com nomes iguais haveria de ter um contexto a lhe identificar. Algo que só para ela, Helena, faria sentido, lhe caberia. Ela acreditava ainda em alma. Isso a ajudava a se distinguir do mundo, a encontrar um eixo próprio que lhe conduziria a um pensamento, a um comportamento, por assim dizer, geral para a vida. E estava ali, naquele momento, diante de um homem e ao lado de outro, tendo que abdicar de um dos seus sobrenomes. Passando de um homem a outro e perdendo seu sobrenome materno. Era ela ainda. Com os mesmos cromossomos de outrora, mas havia de perder uma parte de sua nomenclatura, daquilo que antes lhe fazia ser ela mesma junto com seu cartão de cadastro de pessoa física. Passaria a ser outra pessoa?-perguntava-se no íntimo. Carregar um sobrenome de outrem. Um sobrenome que contava outra história que não a dela. Todos aguardavam sua resposta, diante do altar.

O homem ao lado, impaciente, tomou-lhe o buquê. Agressivamente esfregou as flores umas nas outras, desmontando o arranjo de qualquer jeito. Fê-las horrendas. Empurrou Helena, jogando-a no chão. Atirou nela os restos de flores. Pobre Helena! Ele, após o arroubo, partiu sem olhar para trás. Ela chorava ali sentada no chão. Os convidados copiaram o noivo decepcionado. Arrancaram as flores da decoração. Esfacelaram-nas e jogaram na mulher junto com insultos. Ela chorava debaixo da chuva de pétalas.
Contam que este episódio marcou a vida de Helena profundamente, embora ela nunca o tenha declarado como digno de nota. Talvez aquele episódio tenha sido o menos significativo de sua atribulada vida, todavia sempre se via fazendo reflexões acerca da identidade e do casamento.
– Acho mesmo um absurdo que, quando alguém se case, tenha que compartilhar sensações térmicas! Onde já se viu! Uma única coberta! E se o frio ou o calor for diferente?! Absurdo! Absurdo!-dizia enquanto costurava para ganhar a vida anos depois.
Em seu tempo, as mulheres casavam, perdiam parte de seus nomes. Eram educadas para tal. Aprendiam logo cedo a cozinhar, costurar, cuidar de crianças, serem zelosas com todos em volta. Embora tenha sido exposta a todos esses estímulos, Helena desprendeu-se da convencionalidade logo cedo. Acreditava que poderia ser ela mesma. Era, para sua época, uma mulher subversiva. Ela toda, no entanto, só queria paz. Não pretendia dar na cara da sociedade ou subverter coisa alguma. Queria apenas ser ela, e não um pedaço de costela. Ela, em si, sentia-se um organismo completo, inteiro, dona de suas costelas, vértebras e tudo mais. Desejava ser dona do seu gozo e do seu corpo. Queria da vida apenas aquilo: ser livre.

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