Das coisas invisíveis

por Gerana Damulakis

A mais recente reunião de contos de Tatiane de Oliveira Gonçalves, intitulada Das coisas invisíveis, traz mais de duas dezenas de “contos pequenos”, menores do que a maioria das narrativas do seu volume anterior, As borboletas são assim.

As elipses narrativas estão mais acentuadas nos textos da nova coletânea. O “conto pequeno” vai se aproximando do miniconto, quem sabe um dia chegará ao nanoconto. O que se encontra nas oito linhas do texto “Estranha” já dá uma pista sobre o assunto, ou seja, o caminho está aberto, não será surpresa se o próximo livro trouxer contos mínimos. Tatiane sugere cada vez mais e mostra cada vez menos, porque a história por trás da história, como diz Ricardo Piglia, em O laboratório do escritor (Iluminuras, 1993), deve ser preenchida pelo leitor.

As borboletas (nesta altura, já como uma marca da autora) aparecem em cores duras, mas têm sua leveza destacada pela sutil admiração de uma dançarina. Não se pense que a ficção de Tatiane namora com o lírico por conta das borboletas, das dançarinas e afins. Nada disso. Esta é uma ficção densa, sim, entretanto destila tanto sutilezas quanto asperezas, como no conto “O quarto de Candice”; por sinal, um conto memorável, passível de figurar nas antologias futuras que valorizem nossos escritores contemporâneos.

Ao dizer que a ficção de Tatiane traz densidade, quero dizer que ela é consistente como a vida; um excelente modelo de como as vicissitudes conferem tal envergadura está na inveja de uma mãe pelo sucesso da filha, em “A bailarina”, o mais bem sucedido conto do volume que, inclusive, retrata bastante bem as paixões e anseios dos personagens, habitantes do universo ficcional da escritora.

Os contos são curtos, o que não impede um desenvolvimento muito equilibrado durante todas as suas narrações, sem exceção, haja vista a autora ter como marca a justeza das expressões. A sensação final é a de que miramos um espelho d’água, calmo na superfície, liso, escondendo, entretanto, os vulcânicos abalos que fazem parte da essência humana, mesmo em existências supostamente protegidas, como no conto “Sozinha”, ou em “Madalena”, ambas as alegorias muito bem logradas em toda a sua intenção.

Os contos são curtos, muito curtos por vezes, repito, mas não abolem a descrição necessária: “Uma senhora muito alinhada”, em “O pacote”; “mãe zelosa, preocupada, presente”, em “As manhãs”. É assim que a escritora quer, é a dose que ela nos passa, nada além.

Vale apontar “O quarteto”, “Questão de beleza” e “A plantonista” como exemplos curiosos, interessantes, mais realizados no que tange ao ato de contar uma história. Prefiro, contudo, a contista que sugere e deixa o leitor completar o conto. Vale também citar o texto “Scherazade”, englobando “O amigo secreto”, “A paixão”, “A obsessão”, “A sentença”, como uma forma de homenagem ao encanto da contadora de histórias.

As borboletas são assim foi um volume de contos que trouxe, de saída, o aval de Maria da Conceição Paranhos percebendo o insólito emergindo da banalidade e as surpresas que concorrem para o desvio de rota das narrativas de casos corriqueiros; os contos mostravam as coisas que nos afligem e como criamos escapatórias para a opressão da rotina. Enfatizei o talento de Tatiane de Oliveira Gonçalves para a ficção, já apontado pela poeta e mestra Conceição, na minha coluna de então, Olho Crítico, no jornal Tribuna. Agora, com Das coisas invisíveis, enfatizo o lugar já bem firmado da ficcionista nas letras baianas. Tome assento, Tatiane.

Salvador, 24 de fevereiro de 2009